Eu te deixo hematomas, você me deixa cicatrizes, essas feridas, sinais vermelhos em comum. Meu tronco pedindo passagem, suas coxas nem cobrando pedágio. Lá vou eu, outra vez, lamentar do preço da carne nas esquinas, depois.
Não quero voltar. Só preciso. Te dizer que não pode ser desse jeito. Fazer tudo por você e nada por mim. Prometo ficar na porta, as paredes da sala de estar já ardem em fogo, eu sei. Vou prender a respiração. Se eu inspirar seu cheiro de poros morenos, cigarro e creme de pentear nada vai dar certo. Juro, dessa vez, me despedir antes da meia-noite e não na companhia do pio errante dos pássaros e a luz arrependida de mais uma manhã. Não adianta me atender seminua com a franja cruzando a testa em tranversal, os olhos azul-pálido, sua magreza recheada em partes cruciais do seu corpo, a carinha de "papai foi trabalhar". Não vai ser como da última. Não vai.
Vou tapar as orelhas, pensando bem, não ouvir nada, meu amor, o estalo do beijo. Que eu não mudei nada, desde anteontem - debochada, caústica, atrevida demais. Você, atriz de rua e plateia, personagem fixa e principal, nas suas peças teatrais sempre me sobra o papelão, dramatização da dor, humilhação, autodesprezo no ato final.
Eu juro que não. Eu nego. Com a boca, digo não. Hoje, não. Negativo. Agora não. Não dá mais. Não pode ser. Não. Nem pensar. Não, eu disse. Porque não. Não, não e não. Repassando: não. Não, mas obrigado. Quando digo não é não. Ah, não.
Aí você abre a porta e tudo muda de figura.
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