08 setembro 2011


Me pego ligeiramente feliz em constatar que dessa vez ele não jogou fora nenhum retrato. Aqui é bom. Realmente bom. Um pouco tumultuado e inconstante e inseguro e levemente degenerativo, preciso dizer. Mas bom. Ótimo, até. Estamos juntos a um tempo que não consigo mensurar sem alguns cálculos. Às vezes ele sabe ser legal comigo e isso é tudo que preciso. Há uma ligação profunda aqui, um cheiro que credencia uma casa a chamar-se de lar. Não quero jogar tudo fora a não ser que seja realmente obrigada, mesmo que muitas vezes ele ponha em prática esse plano subliminar de me perder.
Normalmente nossos corpos se encaixam sem o auxílio das mãos, mas percebo um movimento estranho. Ele quer segurança, proteção. Quer saber se tenho alguma. Eu espero a hora dele anunciar a brincadeira, mas a coisa da camisinha parece séria. Fiquei só seis dias fora, quem você pensa que eu sou? - pergunto. Não preciso me fazer de ofendida porque estou, na verdade. Nem ele acredita nisso, é apenas uma crise de farisaísmo, mas o interessante é que ele arrumou um novo jeito de me magoar. Estou aqui porque tenho um amor bruto e tudo que recebo em troca são insinuações de que posso matá-lo com prazer.

Eu balanço a cabeça, enxugo as lágrimas menos resistentes e saio de baixo. “Vá se foder!”, eu grito. “Vá se foder você!”, ele me devolve no volume mil. E outras coisas que não deveriam sair de onde saíram, porque numa hora dessas ninguém sabe o que é verdade, o que não é. Me fecho no banheiro, ele bate a porta da frente, conforme já ensaiado. Já sei, vamos ficar acordados pensando em como consertar tanto estrago e vamos falhar mais uma vez. Se o inferno me chama, eu vou. É do céu que eu morro de medo. Como algo pode ser tudo e tão pouco ao mesmo tempo? Como pode alguém não saber viver sem e nem com?

Depois vem o silêncio e os planos para o sofá. Ninguém pode ficar trancado a vida inteira. Chega uma hora que é necessário encarar tudo de frente, disponibilizar-se para o tudo bem. Na mesa, um embrulho pra presente e o que parece um bilhete de desculpas: "Pra você usar com quem quiser. Com amor." - são mais de cem pacotes de Jontex, numa caixa. O curioso é que ele ainda consegue me surpreender. Sempre arruma um novo jeito de me machucar. Mãe, será que o pai pode vir me buscar? Nada, mãe. Não aconteceu nada.



Gabito Nunes

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